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São Luís, Maranhão, Brazil
Homem simples e comum: procuro ser gentil com as pessoas, amigo dos meus amigos e bondoso com a minha família. Sou apaixonado por filmes, internet, livros, futebol e música. Estou tentando sempre equilibrar corpo e mente, manter-me informado das notícias a nível mundial, ministrar aulas de geografia em paralelo às pesquisas acadêmicas que desenvolvo e, no meio de tudo isso, tento achar tempo para o lazer e o namoro. Profissionalmente,sou geógrafo e professor de Geografia no Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal do Maranhão (IFMA ­ Campus Avançado Porto Franco) e Doutorando em Geografia Humana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Membro do Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA) e do Núcleo de Estudos do Pensamento Socialista Pesquisa do Sindicalismo (NEPS), ambos da UFMA. Participo da Rede Justiça nos Trilhos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

8 meses do desastre de Mariana (MG): “lucro privado, prejuízo coletivo”

Imagem: Barragem de mineradora se rompeu na região de Mariana (MG). Foto: Corpo de Bombeiros-MG


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Por Raphael Sanz, Correio da Cidadania
Já se passou mais de meio ano do rompimento da barragem de rejeitos do grupo de mineradoras Samarco/Vale/BHP em Mariana-MG. Na ocasião, toneladas de lama tóxica varreram 800 km de curso de um dos principais rios do ecossistema brasileiro, causando incontáveis impactos ambientais, sociais e econômicos na região do Rio Doce. Para debater tais impactos sob um ponto de vista técnico, falamos com os biólogos Dante Pavan e Viviane Schuch no auditório de biociências da USP, logo após um debate no qual apresentaram dados e análises de seu grupo, o GIAIA – Grupo Independente de Análise de Impacto Ambiental. Financiado pela sociedade, esse grupo faz suas imersões sobre os impactos da tragédia sem preocupar-se com interesses políticos ou privados.
Durante o debate que antecedeu esta entrevista, a bióloga Viviane Schuch apresentou diversos dados. Como o de que o rio Doce é o maior da região Sudeste, o quinto maior do Brasil e responsável pelo abastecimento de água e subsistência de aproximadamente 5 milhões de pessoas. Em concordância, o professor Dante Pavan busca sempre deixar clara a complexidade deste ecossistema e dos impactos gerados pelo desastre.
“Na minha opinião, é uma coisa muito complexa. Envolve um ecossistema complexo, diversos compostos químicos, uma biodiversidade enorme, apesar de pauperizada. Estamos apenas no começo de um entendimento mais amplo do que a Samarco/Vale/BHP jogou na água. Ainda podemos demorar um tempo para entender o efeito desses compostos a longo prazo”, disse Dante Pavan.
“Há dados de represas que rompem anualmente no Brasil, não são casos isolados. Isso causa um prejuízo enorme em uma área que se estende por mais de 800 km em troca de um lucro que não é revertido à sociedade brasileira, mas vai para os donos e acionistas do empreendimento. Há um lucro privado e um prejuízo coletivo”, afirmou Viviane Schuch, também professora da Unifesp.
Eles defendem uma democratização da ciência, na qual a população possa, a partir de uma formação nas escolas, participar do debate científico e pautar questões como as de impacto ambiental junto ao poder público. “Mais além do desastre em si, é importante dizer o quanto ele representa. Vemos que as leis e os mecanismos da sociedade de proteção ao meio ambiente não estão funcionando. É um alerta de que o que aconteceu com o rio Doce hoje pode acontecer amanhã em outro lugar porque as coisas não estão funcionando. Esse é o recado mais importante de todo o desastre e que a sociedade tem de perceber”, alertou o professor Dante Pavan.
A entrevista completa pode ser lida a seguir:
Correio da Cidadania: Cerca de 8 meses se passaram do rompimento da barragem de rejeitos minerais da Samarco/Vale/BHP, seguido do escorrimento da lama tóxica por toda a bacia do rio Doce. Levando em consideração o tempo transcorrido, como está a situação das águas?
Dante Pavan: Aparentemente, os níveis de substâncias tóxicas estão caindo. Temos uma medição de dezembro e outra de abril que mostram uma considerável diminuição. Depois de abril podemos falar de impressões. Visualmente, os sólidos em suspensão já estavam mais baixos, menores e a água mostrava sinais de que voltava a ser transparente. As substâncias que estão na água e suas partículas descem rápido. Assim, por um fluxo de partículas muito grande durante o período de cheias de dezembro e janeiro, vemos que muito foi levado embora. Mas houve também a diminuição das chuvas que levaram muitos rejeitos para dentro do rio, a causar uma correnteza mais forte e com mais turbilhonamento (espécie de redemoinho, seguido correnteza que se forma a partir desse redemoinho), que faz as substâncias do fundo levantarem mais.
Agora, pela falta de chuvas, a água está parada e as substâncias estão assentadas no fundo do rio. Há muito sedimento de rejeito no fundo e, apesar da melhora, acredito que vá aumentar em proporção com a queda da chegada de águas; depois, haverá nova piora quando voltar a estação chuvosa. E todo o processo acontecerá novamente.
Depois de tudo que foi facilmente levado para a água for embora, teremos uma grande quantidade de solo e subsolo onde penetrou a água contaminada. Por fim, nas enchentes futuras, ou seja, toda vez que o rio encher e isso tudo for mexido, pode voltar a contaminação.
Viviane Schuch: De forma geral, no resultado que tivemos pelo GIAIA das análises realizadas em dezembro, encontramos altos índices de contaminação por metais pesados em diversas amostras tiradas ao longo do rio Doce. Isso indicou que a água não está própria para captação e uso humano. Não obedecia aos padrões do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente – que definem os critérios da captação de água para consumo humano.
A água do Rio Doce não se enquadrava nesses critérios e estava imprópria para uso. Agora com as análises que foram realizadas em abril, feitas na segunda expedição do GIAIA, esse índice de contaminação já diminuiu muito, a água está um pouco mais própria, a depender do elemento. O manganês, por exemplo, está elevado em muitos pontos ainda, mas a maioria dos metais pesados mais tóxicos já diminuiu bastante a contaminação, deixando a água um pouco mais própria para o consumo humano.
Correio da Cidadania: Ainda sobre os impactos ambientais, foi possível vislumbrar alguma melhora na recuperação das fauna e flora da bacia do rio Doce?
Viviane Schuch: Sobre os impactos na fauna e na flora, não sabemos muito porque ainda estão ocorrendo. Não sabemos quais são os efeitos de bioacumulação. Nem os relatórios de toxicidade estão concluídos até o momento. Como o impacto ainda está curso e as análises que fizemos são preliminares, não temos condições de dar uma resposta definitiva sobre a questão.
O que podemos observar é que fauna e flora estão seriamente prejudicadas. Tanto pela avalanche física que desceu das bacias de rejeitos, destruindo a mata ciliar, quanto pela contaminação química, que tem um efeito mais a longo prazo.
Danta Pavan: A mortalidade que ocorreu ali logo após o desastre nos mais diversos tipos de organismos depende muito do trecho. Lá para cima, perto do desastre, morreu tudo. Para baixo, a mortalidade foi mais seletiva. Isso implica em uma perda enorme de diversidade. Temos populações inteiras que foram extremamente reduzidas. Mesmo que elas voltem depois, vão voltar a partir de poucos indivíduos. É como se repovoássemos uma cidade de milhões de pessoas a partir de alguns casais. Isso significa baixa diversidade biológica. Houve uma perda e não se tem de onde tirá-la de volta, mesmo que haja uma recuperação do rio.
É muito difícil prevermos o que vai acontecer e em quanto tempo. É claro que vai diminuir a concentração de elementos tóxicos, vai diminuir a turbidez da água, vão penetrar luz, crescer algas, folhas que caem no rio serão comidas por bactérias e insetos, ou seja, o rio vai começar a se reestruturar. É bem possível que ele forme uma estrutura simples no começo. Com poucas espécies, poucos organismos e poucas relações ecológicas. Depois, vai se tornando mais complexo com o passar do tempo. Mas não podemos dizer em quanto tempo. Precisamos estudar mais para entender o processo.
É óbvio que haverá uma melhoria das condições ecológicas do rio na medida em que a concentração de substâncias tóxicas for diminuindo, e a tendência é que diminua. Talvez em alguns aspectos, por exemplo, diminua tanto a pesca que o ambiente favoreça um repovoamento de peixes. Ocorreu algo semelhante em Chernobyl, onde hoje é possível avistar muitos animais selvagens, por conta da ausência humana após o desastre nuclear. Talvez o rio Doce possa se recuperar, até mesmo levando em conta a preocupação que a população tem demonstrado.
Viviane Schuch: Voltar igual ao que era antes não dá porque o impacto foi muito grande. O ecossistema vai, de certa forma, se regenerar dentro de suas possibilidades, mas acho difícil voltar ao que era antes do desastre – mesmo porque antes já estava muito degradado. O rio Doce tem uma influência antrópica muito grande. Esperamos que isso jogue luz ao problema de devastação das áreas em torno do rio, da atividade mineradora, que é muito agressiva ao meio ambiente, e o rio possa ficar melhor do que era antes. Mas o desastre já está consolidado. Imagino que daqui a dez séculos os geólogos vão analisar o perfil sedimentário e ver que neste ano de 2015 houve alguma coisa muito grave. Vai ficar marcado.
Dante Pavan: Existem lugares onde o Rio vai marcando seus depósitos de sedimento. Todos os anos formam-se novas camadas de sedimento no fundo do rio, uma por cima da outra. As camadas de sedimento desse ano vão ficar marcadas com os compostos químicos. Eventualmente, o rio pode destruir essa camada que ele próprio construiu e disponibilizar de novo o rejeito que estava lá. Em outras palavras, forma-se um barranco, dali um tempo o rio vem e destrói esse barranco, espalhando novamente o sedimento.
Correio da Cidadania: O país ainda carece de uma noção mais precisa da magnitude do fato?
Dante Pavan: Na minha opinião, o acontecimento é uma coisa muito complexa. Envolve um ecossistema complexo, diversos compostos químicos, uma biodiversidade enorme, apesar de pauperizada. Estamos apenas no começo de um entendimento mais amplo do que a Samarco/Vale/BHP jogou na água. Ainda podemos demorar um tempo para entender o efeito de tais compostos a longo prazo.
Viviane Schuch: A sociedade não tem uma real magnitude do impacto. Conversamos muito com biólogos e colegas de trabalho que estão pesquisando. Mas eu, por exemplo, dou aula no Senac em um curso que não é para biólogos e quando converso com os alunos e pessoas no geral vejo que eles não têm muita noção. Muitos nem sabem o que aconteceu. Algumas pessoas não entendem conceitos como “rejeito de mineração” e acham que é uma barragem de água. Pouca gente tem noção da importância do rio Doce para o ecossistema brasileiro e da magnitude do desastre que vai atingir a nós, nossos filhos, netos e gerações futuras. A maioria da população brasileira ainda não tem dimensão.
Dante Pavan: Mais além do desastre em si, é importante dizer o quanto ele representa. Vemos que as leis e os mecanismos da sociedade de proteção ao meio ambiente não estão funcionando. É um alerta de que o que aconteceu com o rio Doce hoje pode acontecer amanhã em outro lugar porque as coisas não estão funcionando. Esse é o recado mais importante de todo o desastre e que a sociedade tem de perceber.
É preciso que a sociedade absorva as coisas e tenha uma opinião a respeito delas para pautar as ações dos políticos. A sociedade não pode ficar alienada e ignorar as questões que a afetam, deixando-as nas mãos deles. É preciso que as pessoas tenham consciência das coisas que estão acontecendo, o máximo possível.
Hoje, os mecanismos de licenciamento e fiscalização estão praticamente inoperantes. Assim, gostaria muito que a sociedade e a ciência – afinal, como que a ciência se insere nesse processo? – se envolvessem no processo e ajudassem a dar respostas. Existe toda uma ciência financiada pelo Estado que não se voltou para resolver os problemas ambientais. O que está sendo feito no Brasil, qual seu desenvolvimento e como fazer o desenvolvimento gerar menos impactos e ser mais sustentável?
Correio da Cidadania: Nesse caso seria necessária uma maior democratização da ciência?
Viviane Schuch: Exato. Que a sociedade de forma geral participe das discussões científicas. Acreditamos que a junção dos cientistas com a sociedade é que vai promover uma elevação do nível da discussão, especialmente perante os governantes, que tomam as decisões. Que a sociedade os pressione para que consultem os cientistas antes de tomar decisões como, por exemplo, a flexibilização do licenciamento ambiental (PEC 65).
Uma vez que não são biólogos, os governantes não têm condições de tomar uma decisão dessas sem consultar pessoas que trabalham e se dedicam diariamente a tal tipo de estudo. Tomam suas decisões baseadas em interesses partidários, particulares ou de financiadores de campanha e agenda eleitoral. Acreditamos que a sociedade deva participar da discussão para ajudar a fazer com que o ciclo se feche: que os políticos consultem os cientistas e os cientistas possam oferecer subsídios para que os políticos tomem decisões melhores em relação ao meio ambiente.
Nesse processo de democratização da ciência, é essencial a participação da sociedade, tanto no próprio processo científico com coletas de dados e análise de resultados como também para discutir os dados gerados e criar um conhecimento coletivo, que é muito importante para elevar o nível da discussão. Vemos hoje discussões rasas e o problema é muito mais complexo.
Dante Pavan: Uma pesquisa no Instituto de Ciência e Tecnologia é baseada em algum anseio da sociedade. Se a sociedade não tem nenhuma opinião crítica nem qualquer formação científica, como ela vai decidir, opinar e direcionar uma boa política de ciência e tecnologia?
Viviane Schuch: Não há no Brasil a cultura de se fazer uma formação científica com a população e, assim, muitas decisões que precisariam de mais estudo são tomadas de acordo com interesses diversos. Enquanto isso a ciência coleta, pesquisa, cataloga, analisa, compara e assim por diante. É preciso democratizar a ciência.
Correio da Cidadania: De que maneira acredita que o modelo de exploração mineral contribuiu para o desastre?
Dante Pavan: O que contribuiu para o desastre foi o modelo de regulação das atividades de grande interesse econômico e que produzem grandes impactos ambientais, mas não são necessariamente mineradoras. A mineração apresenta mais risco, por isso o desastre de Mariana-MG aconteceu a partir da mineração. Mas as hidrelétricas, por exemplo, causam impactos ambientais gigantescos. Sem tragédias, mortes e danos tão evidentes como esses, mas com prejuízos enormes à população.
Viviane Schuch: No caso da Samarco, dizem que gera em torno de 5 mil empregos diretos, com 20 mil empregos se somarmos os indiretos. Apesar disso, vejo que ganha muito dinheiro com a atividade mineradora, enquanto a sociedade brasileira arca com os prejuízos. Não entendo onde está fechando a conta.
Acabam devastando e impactando uma área enorme com o próprio empreendimento, a partir das represas de rejeitos e pela contaminação que gera quando essas represas rompem – há dados de represas que rompem anualmente no Brasil, não são casos isolados. Causam um prejuízo enorme em uma área que se estende por mais 800km em troca de um lucro que não é revertido à sociedade brasileira, pois vai para os donos e acionistas do empreendimento. Há um lucro privado e um prejuízo coletivo.
A atividade mineradora é muito prejudicial. Principalmente em um país como o Brasil, onde nossa maior riqueza é o meio ambiente. Como frisou o professor Dante, também as hidrelétricas oferecem prejuízos correlatos.
Dante Pavan: Uma saída seria precificar os impactos. Conseguir de fato jogar na conta os custos de quem está exercendo a atividade.
Viviane Schuch: A BHP Billiton é australiana. A Austrália é a região do planeta que tem as maiores reservas de minério de ferro, só que eles não extraem minério de ferro lá com o mesmo ritmo que extraem do Brasil – porque lá tem regulação. As leis ambientais existem, têm de ser cumpridas e os projetos de impacto ambiental têm de usar a melhor tecnologia e os melhores e menos poluentes processos. Ambos custam muito caro. Portanto, para eles é mais vantajoso vir minerar aqui no Brasil. Nós temos leis ambientais boas, mas sabemos que não há fiscalização. É muito mais barato produzir minério aqui do que na Austrália, por isso a BHP está aqui.
Se as leis de proteção ambiental, licenciamentos, fiscalização, enfim, se tudo fosse cumprido como deveria para minimizar impactos e acidentes, não sei se seria vantajoso para as grandes mineradoras internacionais. É como se houvesse um preço para um prejuízo incalculável. Ainda precisamos fazer tal cálculo.
Dante Pavan: A prevenção de impactos ambientais gera um custo. E se você tem um custo a mais, acaba lucrando menos no final. Portanto, se você fizer um trabalho mais irresponsável, com menos restrições, há uma expectativa de lucro futuro maior.
É importante decidir um método de cálculo de impactos ambientais que possa ser usado pela legislação. Agora, esse trabalho é muito difícil de ser feito pois há muitas variáveis que dificultam a precificação dos impactos ambientais.
Correio da Cidadania: O que seria necessário fazer a partir da sociedade civil e do poder público para evitar futuras tragédias?
Dante Pavan: Aí entra o poder do cidadão que estávamos falando. O Brasil hoje só está andando em relação ao prosseguimento da Lava Jato, pois há um medo muito grande de reações da população. A vontade do povo está sendo respeitada de alguma maneira. No sentido de que existe um desejo forte de punição aos corruptos. Tanto os ditos “coxinhas” quanto na esquerda, cada um pedindo punição para corrupção da sua maneira. Foram para a rua e manifestaram sua opinião, coisa que no Brasil antes não existia. O problema é que para questões ambientais ainda não existe essa força.
Viviane Schuch: Uma pergunta que muitas vezes escuto é: mas como em Bento Rodrigues as pessoas foram morar tão próximas, a cerca de 2km, da represa de rejeito de mineração? Na verdade, o distrito estava lá antes da barragem. Séculos antes. Aquela população já morava lá muito antes do empreendimento.
Dante Pavan: A empresa chegou e ofereceu uma indenização. Era obrigada a tirar um povo de lá e o povo não queria sair. Ela ofereceu uma quantia baixa por achar que a população ficaria com medo da desvalorização. A população não aceitou o pouco oferecido e foram enrolando. Na sequência, apareceu um vereador “espertinho”, foi lá e colocou luz e escola. Em outras palavras, consolidou ainda mais o povoado, incentivou as pessoas a ficarem por lá. Se o poder público ali fosse responsável, ele teria impedido a barragem de ser construída ou teria tirado as pessoas de lá. O fato é que depois da barragem as pessoas não deviam morar lá.
Em Mariana (MG), uma esmagadora maioria da arrecadação da cidade ocorre em função da Samarco. A prefeitura de Mariana pode falir se a Samarco não estiver operando. Por isso que o poder público e setores da população querem a volta da Samarco. Existe um grande monopólio do minério de ferro. E muito pouca diversidade econômica na cidade. Se a atividade da cidade não fosse só o minério de ferro e se não estivesse concentrada em tão poucas mãos, não estaria acontecendo.
Também a cidade de Rio Doce está com um problema orçamentário enorme. A hidrelétrica foi assoreada e o que sustenta a cidade são os royalties da hidrelétrica. Quem tem de pagar a conta é a Samarco, teoricamente.
Correio da Cidadania: Existem outros empreendimentos, tanto de exploração mineradora quanto em outras áreas, que apresentem riscos semelhantes?
Viviane Schuch: Há muitos. Por exemplo as hidrelétricas do Tapajós, cujos impactos ambientais são enormes. Olharam para a bacia e fizeram um plano para represar tudo. Com isso, perde-se a continuidade do rio. Algo como esse impacto pode ser evitado agora se conseguirmos nos juntar, discutir e mobilizar porque ainda está por vir.
Dante Pavan: Devem haver mais ou menos 20 anos de leis de impactos ambientais e nesse tempo não vejo mudança no jeito de aplicá-las. As empresas começaram a gastar muito dinheiro com as leis de impactos ambientais. Isso significa que entra dinheiro, mas não é bem gasto.
Viviane Schuch: Por isso, propomos uma nova forma de fazer licenciamento e estudos de impacto ambiental. Que sejam realizados de forma aberta, independente de interesses políticos e econômicos, e com participação da população diretamente atingida.
Hoje os relatórios de impactos ambientais são feitos pelo próprio empreendedor que causará os impactos, e são de propriedade do empreendedor. Assim, não podemos confiar que tais trabalhos resolvam os problemas e minimizem os impactos de grandes empreendimentos. É preciso repensar todo o processo, tanto o licenciamento quanto a fiscalização.
Dante Pavan: E criar um modelo novo de pesquisa. Isso tem sido muito conversado entre cientistas. É preciso criar um novo modelo de como costurar todo o trabalho. Atualmente, as áreas atuam sem muita comunicação entre si, cada uma separada no seu recorte dentro da sua área de conhecimento, sempre os mesmos temas, sem troca de informações nem transversalidade. E observando isso estamos tentando pensar uma nova forma de realizar os trabalhos, cruzar dados e chegar a conclusões mais complexas, que deem conta de explicar e mensurar o tamanho dos impactos sob diversos pontos de vista. Que levem em consideração a qualidade da água, a vegetação, as faunas, a população humana, ou seja, uma forma de cruzar diversos tipos de impacto. Não é uma tarefa simples, mas o que podemos fazer agora é tentar.
Para ter acesso aos relatórios publicados acesse o grupo GIAIA.
Imagem: Barragem de mineradora se rompeu na região de Mariana (MG). Foto: Corpo de Bombeiros-MG

Matopiba: mata o Cerrado e seus povos

matopiba demarcacao indigena


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Realizada entre os dias 20 e 23 de junho, em Palmas (TO), a III Assembleia dos Povos Indígenas de Goiás e Tocantins reuniu mais de seiscentos indígenas e teve como tema “Na defesa dos Direitos Constitucionais dos Povos Indígenas, resistimos e denunciamos os impactos do Matopiba nos territórios tradicionais”. Marcado pela forte presença de jovens lideranças, o evento proporcionou espaço e tempo para que os nove povos presentes dos dois estados – Apinajé, Krahô, Xerente, Karajá de Xambioá, Krahô-Kanela, Kanela do Tocantins, Avá-Canoeiro e Javaé, de Tocantins; e Tapuia, de Goiás – debatessem seus principais desafios locais e as questões mais emblemáticas da difícil conjuntura nacional.
Os direitos constitucionais dos povos indígenas, os impactos e as implicações do Matopiba nas mudanças climáticas, a desterritorialização dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, a educação escolar e a saúde indígena foram os principais temas debatidos. Além da presença de indígenas dos povos Kayapó, do Pará, Guarani e Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, e Pataxó Hã-Hã-Hãe, da Bahia, também participaram da Assembleia representantes de comunidades tradicionais, como quebradeiras de coco, quilombolas, ribeirinhos e camponeses, e organizações aliadas como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Membros de instituições do Estado, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Não Renováveis (Ibama), o Naturantins, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Secretaria Estadual de Educação do Tocantins, dentre outros, foram duramente questionados pelos indígenas sobre a implementação das políticas públicas específicas e, especialmente, pela ausência delas. A coordenadora do Distrito Especial de Saúde Indígena (Dsei) de Tocantins, Ivanezilha Noleto, foi repudiada pelos indígenas por não ter comparecido ao debate.
De modo geral, o eixo central da Assembleia foi a resistência ao Plano de Desenvolvimento Agrário (PDA) Matopiba – a última fronteira agrícola do Brasil, sendo implantada nos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – e a todos os outros projetos de infraestrutura e os que tramitam no Congresso Nacional, que violam os direitos constitucionais indígenas.
Na tarde do dia 22 foi realizada uma caminhada pelas avenidas centrais de Palmas em que os indígenas e seus aliados explicavam à população como o Matopiba irá agravar ainda mais a destruição do Cerrado, expulsando os povos indígenas e as comunidades tradicionais de seus territórios. Os participantes foram até a Assembleia Legislativa do estado, onde entregaram um documento aos deputados manifestando o seu repúdio a este projeto do agronegócio brasileiro e internacional. Diversos rituais foram realizados na Assembleia, onde através de seus rituais, cantos e danças os povos expressaram a importância de defender os diversos modos de vida presentes no Brasil.
“As pessoas não enxergam que somos as sementes da nossa MãeTerra, que somos as flores dos nossos rios, o nosso Pai, que somos os brotos dos tempos que virão. O governo não nos respeita. Estão acabando com toda a vida por causa de dinheiro. Os hospitais estão cheios de gente que come veneno todo dia. Estão acabando com as nossas terras, com nossa saúde. Mas mesmo assim não vamos nos calar”, afirmou Gercília Krahô, evidenciando a força e determinação dos povos indígenas em defenderem seus direitos e a própria vida.
indigenas cruzes protesto
Leia aqui o documento final da III Assembleia dos Povos Indígenas de Goiás e Tocantins na íntegra.
fotos: Helen Lopes

sexta-feira, 24 de junho de 2016

MPF/MA pede que a empresa Suzano interrompa desmatamento do cerrado maranhense

Imagem: Reprodução do site www.salvalaselva.org

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A expansão dos plantios de eucalipto feita pela empresa de papel e celulose está causando problemas ambientais e sociais na região do Baixo Parnaíba maranhense
O Ministério Público Federal no Maranhão (MPF/MA) propôs ação contra o Estado do Maranhão, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a empresa Suzano Papel e Celulose S.A. por conta dos impactos causados pela expansão dos plantios de eucalipto na região do Baixo Parnaíba maranhense, com autorização da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema). Os municípios afetados são Santa Quitéria do Maranhão, Urbano Santos e Mata Roma.
O MPF/MA tomou conhecimento dos problemas socioambientais provocados pela Suzano por meio de pesquisa encaminhada por um programa de pós-graduação. A pesquisa mostra que a atuação da empresa estaria prejudicando o modo de vida e a economia de comunidades tradicionais da região por conta da intervenção ambiental descontrolada, que alterou significativamente o cenário local.
Alguns dos impactos causados pelo empreendimento agrícola são o desmatamento da vegetação nativa, ocasionando a escassez de frutas, plantas medicinais, madeira e caça, e a contaminação dos recursos hídricos pela utilização de agrotóxicos em larga escala. Os agrotóxicos estariam contribuindo também para o aparecimento de doenças respiratórias e de pele em crianças. Outro problema apontado é o consumo de água em grande quantidade por parte da empresa, provocando, assim, o esgotamento de lagoas e causando redução na vazão de cursos d’água.
Segundo o MPF/MA, o Estado foi omisso, pois cabia à Sema não somente a responsabilidade de expedir a licença ambiental para o empreendimento da Suzano, como também monitorar suas atividades e propor ajustes quando necessário. Diante da omissão da Secretaria, o MPF solicitou ao Ibama que realizasse análises técnicas no local, mas, apesar de ter constatado as irregularidades, limitou-se a afirmar que a análise seria de competência apenas do órgão estadual que emitiu a licença, já que ele dispunha dos documentos e estudos ambientais necessários à compreensão da realidade.
De acordo com o procurador Alexandre Soares, autor da ação, “o Ibama possui o dever institucional de coibir abusos e danos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, vez que se trata de órgão executor da Política Nacional do Meio Ambiente”, conforme entendimento do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Na ação, pede-se liminarmente que a Suzano seja obrigada a interromper a expansão e implantação de florestas de eucalipto na região do Baixo Parnaíba no prazo de 72 horas, sob pena de multa e ressalvada a manutenção dos plantios já existentes. O MPF/MA quer ainda que o Estado e o Ibama acompanhem e fiscalizem efetivamente a execução da medida restritiva. Em caso de descumprimento, requer-se que o Estado suspenda a licença para operação concedida ao empreendimento.
Número do processo para acompanhamento na Justiça Federal: 178725920164013700.
Imagem: Reprodução do site www.salvalaselva.org


segunda-feira, 28 de março de 2016

PA – Salobo [subsidiária da Vale] derrama nitrato de amônio em Marabá

flona tapirapé maraba
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Subsidiária da Vale comete poluição química em córregos e rios de Marabá, segundo denúncia do MPF
A Justiça Federal abriu dois processos contra a Salobo Metais, projeto de mineração de cobre da mineradora Vale, em Marabá, no sudeste do Pará. O Ministério Público Federal (MPF) acusa a Salobo de crime ambiental por poluir e desmatar ilegalmente áreas de floresta. A Vale informou, por meio de nota, que ainda não foi notificada e por isso prefere não comentar o caso.
O MPF que ajuizou as ações no último mês de janeiro, teve oficialmente acesso à informação sobre o recebimento das denúncias na última sexta-feira (18).
As ações relatam danos provocados à Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri, localizada em Marabá, São Félix do Xingu e Parauapebas. Segundo MPF, as irregularidades foram praticadas por empregados da Salobo e detectadas por agentes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), chefiado pelo marabaense André Luís Macedo Vieira.
A instituição ainda relata que para reduzir a poluição provocada, os fiscais chegaram a improvisar barreiras de contenção em um córrego para evitar maior contaminação com o nitrato de amônio.
Produto químico
De acordo com a procuradora da República Nathália Mariel Pereira, no primeiro semestre de 2015 houve derramamento de 1,5 tonelada de produto químico no solo e águas da floresta, desmatamento ilegal de 5,4 hectares de mata e descarte incorreto de materiais, inclusive de resíduos contaminados com óleo.
Caso seja condenada, a Salobo pode ser obrigada ao pagamento de multas e pode ficar proibida de contratar ou receber incentivos financeiros do poder público, além de ter que promover a prestação de serviços comunitários.
ICMBIO na cola
Segundo informações do chefe da Unidade de Conservação da Flona Tapirapé-Aquiri, André Luís Macedo Vieira, ultimamente a Vale tem protocolado muitas solicitações de supressão de vegetação na área do Projeto Salobo para áreas relativamente pequenas, o que resulta numa quantidade maior de processos de licenciamento, que muitas vezes demoram para chegar em Carajás, onde eles analisam.
O ICMBIO é o mais confiável guardião da sociedade em relação às atividades de mineração no chamado Mosaico Carajás praticadas pela Vale. Embora sejam poucos, os fiscais têm amplo conhecimento e estão de olho no que a Vale faz ou deixa de fazer em todos os projetos.
André Luís Macedo explica que a Lei Nº 11.516, que cria o ICMBio, concede ao  instituto poder de policia ambiental para garantir a proteção das unidades de conservação. Desta forma, assim como o IBAMA, o ICMBio tem autonomia para fiscalizar as atividades da mineradora no interior da Unidade de Conservação e atividades externas que causem algum impacto nas UC’s.
A Floresta Nacional do Tapirape-aquiri tem 80% de sua área de 196.503,94 hectares localizada no município de Marabá. Os principais atrativos são o Rio Itacaiunas e afluentes; observação de Aves; trilhas na floresta; lagoas pluviais; Complexo Industrial de Mineração de Cobre (Projeto Salobo); Posto Avançado Ecológico (base situada no interior da Floresta, às margens do Rio Itacaiunas); área em processo de restauração ambiental; e castanhais

sexta-feira, 4 de março de 2016

G1: “MPF quer impugnar acordo firmado entre poder público e Samarco”

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Órgão diz que texto ‘prioriza a proteção do patrimônio das empresas’. Trato cria fundo de R$ 20 bilhões para recuperar a Rio Doce em 15 anos.
G1
O Ministério Público Federal de [sic] Minas Gerais (MPF) questiona o acordo firmado nesta quarta-feira (2) entre representantes dos poderes públicos federal, de Minas Gerais e do Espírito Santo com a mineradora Samarco. O órgão pretende impugnar o texto por considerar insuficiente o valor a ser pago pela empresa. [sic]
O trato cria um fundo de R$ 20 bilhões para recuperar a Bacia do Rio Doce em 15 anos. A previsão é que, só entre 2016 e 2018, a mineradora aplique no fundo R$ 4,4 bilhões. O ato de assinatura do acordo, no Palácio do Planalto, foi acompanhado pela presidente Dilma Rousseff.entre União, Estados de MG e ES, Samarco, Vale e BHB Billiton.
Mas segundo o MPF, o acordo “prioriza a proteção do patrimônio das empresas em detrimento da proteção das populações afetadas e do meio ambiente”.
O coordenador da força-tarefa criada pelo órgão para apurar o desastre ambiental em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, e procurador da república de Minas Gerais, José Adércio Leite Sampaio, “o acordo é tão genérico que nós podemos dizer que ele se mostra hoje muito mais como uma carta de intenção do que como um acordo com caráter jurídico. ora, como é que nós podemos extrair de um acordo tão genérico uma obrigação jurídica de um valor específico e de uma obrigação de recuperação ambiental e de proteção dos direitos da vítima”.
A Samarco, cujos controladores são a Vale e a anglo-australiana BHP, é a responsável pela barragem que se rompeu em Mariana (MG) no fim do ano passado e deixou mortos e desabrigados. A lama gerada pelo rompimento atravessou o Rio Doce e chegou ao mar do Espírito Santo. No percurso do rio, cidades tiveram de cortar o abastecimento de água para a população em razão dos dejetos.
Para o procurador Eduardo Aguiar, que também faz parte da força-tarefa, a legislação ambiental brasileira é moderna e capaz de tratar do caso. “O Ministério Público Federal não concorda com o tempo e com o a forma como esse acordo foi costurado. A legislação ambiental é muito evoluída neste sentido, priorizando a questão técnica e não financeira das empresas envolvidas”.
O MPF ainda afirma que as populações atingidas não foram ouvidas durante o processo. O acordo prevê a conclusão de projetos de recuperação da Região do Rio Doce em 15 anos, prazo considerado longo pelo órgão.
“O acordo desconsidera a garantia de responsabilidade solidária do próprio poder público para a reparação do dano, não tendo sido nem sequer estabelecidos mecanismos jurídicos capazes de garantir a efetividade do cumprimento das obrigações assumidas pelas empresas, o que transformou o ajustamento em algo próximo de uma carta de intenções”
A Força-Tarefa esclarece, ainda, que a assinatura do acordo não extingue as demais ações judiciais movidas pelo MPF em Minas Gerais e no Espírito Santo.
O diretor-presidente da Samarco, Roberto Carvalho, que assumiu o cargo depois do afastamento de Ricardo Vescovi, indiciado pelas polícias civil e federal, disse que “a Samarco tem um grande compromisso com as pessoas e o meio ambiente impactados e dará apoio integral à fundação e à implantação dos programas em todas as frentes de trabalho”.
O diretor-presidente da Vale, Murilo Ferreira, disse que “este dia é um marco para todos os envolvidos, uma vez que um acordo é sempre melhor do que uma disputa judicial”.
Para o CEO da BHP Billiton, Andrew Mackenzie, “este acordo demonstra que estamos verdadeiramente empenhados em remediar completamente os danos causados e contribuir para uma melhoria duradoura do Rio Doce”.
Durante a cerimônia de assinatura do acordo, a presidente Dilma Rousseff afirmou que serão tomados dois tipos de medidas. “De um lado, há medidas de curto prazo para reparação dos danos a pessoas e à restauração da vida da população atingida que não pode esperar. De outro, daremos início à execução de medidas de médio e longo prazos assumidas com obrigações para completa recuperação social, econômica e ambiental das regiões atingidas.”
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que os resultados serão alcançados independente dos governos e declarou que a sociedade vai fiscalizar o processo.
Veja os principais pontos do acordo:
– Reparação integral das condições socioeconômicas e do meio ambiente afetados, sem limites financeiros até a integral reparação;
– Horizonte de 15 anos para recuperação. A cada três anos, todos os programa serão avaliados para readequar metas e compromissos;
– Os recursos doados pelas empresas para 2016-2018 será de R$ 4,4 bilhões de reais, como aporte incial, que será ampliado conforme a necessidade;
–  Após 2018, a previsão é de aporte anual de R$ 1,2 bilhão, podendo chegar a R$ 20 bilhões concluído o período;
– Medidas de compensação aos pescadores, produtores, povos indígenas, povos tradicionais, bem como para estimular a retomada de atividades econômicas;
– Recursos para que municípios possam fazer obras de saneamento básico, interrompendo processo de contaminação do rio pelo esgoto;
– Garantir que todos os envolvidos, incluindo comunidades e movimentos sociais, participem da definição, acompanhemento e desenvolvimento de todas as ações;
– As ações serão executadas pela iniciativa privada, mas fiscalizadas pelos estados.
– Com o acordo, a ação civil que tramita sobre o caso entra na fase de implementação e fiscalização.
O que continua pendente:
– O acordo não trata da volta do funcionamento da Samarco, que teve a licença ambiental suspensa;
– A responsabilidade pelos danos também é apurada nas esferas penal e administrativa;
– O Ministério Público ainda deve se pronunciar sobre o pedido de prisão de 7 pessoas, que podem responder por homicídio qualificado por dolo eventual;
– Ainda não foram definidas indenizações para todos os afetados pelo rompimento da barragem. Houve uma antecipação (R$ 100 mil) para vítimas de Mariana;
Orçamento do fundo
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o fundo criado a partir do acordo prevê R$ 20 bilhões em recursos, valor que pode variar. Deverão ser alocados pela mineradora R$ 2 bilhões em 2016; R$ 1,2 bilhão, em 2017; e R$ 1,2 bilhão, em 2018. De 2019 a 2021, o valor a ser investido poderá variar de R$ 800 milhões a R$ 1,6 bilhão.
A partir de 2022, os valores só serão definidos conforme o desenvolvimento dos projetos a serem implementados. Além disso, ao longo dos 15 anos de vigência do acordo, deverão ser investidos R$ 240 milhões a mais a cada ano para medidas compensatórias, como saneamento.
O acordo assinado nesta quarta em Brasília vinha sendo negociado entre os poderes públicos federal e estadual e a Samarco desde o ano passado. Assinaramo documento: Luís Adams (advogado-geral da União), Izabella Teixeria (ministra do Meio Ambiente), Fernando Pimentel (governador de MG), Onofre Alves (advogado-geral de MG), Paulo Hartung (governador do ES), Rodrigo Rabello (procurador-geral do ES), Roberto Nunes (diretor-presidente da Samarco), Murilo Ferreira (diretor-presidente da Vale), Jim (diretor comercial global da BHP) e Flávio Bocaiúvas (diretor de projetos Brasil da BHP)

Associação Brasileira de Antropologia (ABA) expressa desacordo à 4ª edição do Prêmio VALE-CAPES de Ciência e Sustentabilidade

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A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) vem, por meio desta, manifestar seu desacordo em relação à edição do Prêmio VALE-CAPES de Ciência e Sustentabilidade.
Por ocasião da primeira edição desse prêmio, em janeiro de 2013, representantes de associações acadêmicas (entre elas a ABA e a ANPUR), vieram a público declarar que consideravam inadequada a instituição do chamado Prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade, visando contemplar Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado associadas a temas ambientais e socioambientais. Afirmamos, na oportunidade, que era de conhecimento público que as práticas da Vale S.A. são, com grande frequência, avaliadas como impróprias do ponto de vista social e ambiental, em muitos casos com implicações legais, conforme registrado por inúmeros trabalhos de pesquisa nas áreas de Sociologia, Antropologia e Ciências Sociais Aplicadas, expressos em apresentações em Congressos, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado referendadas pela comunidade científica brasileira nos últimos anos.
Nosso desacordo cresce na mesma proporção em que ampliam as danosas consequências daquele que é um dos maiores desastres ambientais e sociais dos últimos tempos no Brasil: o rompimento da barragem de rejeitos da empresa Samarco (Vale/BHP-Billinton) em Mariana, Minas Gerais, em 5 de novembro de 2015. Povos indígenas e comunidades tradicionais, além de uma imensa região, foram atingidos pelo desastre, é o caso dos KrenacTupinikin e Guarani; da comunidade de pomeranos, pescadores; e coletivos quilombolas entre outras tantas, quer na bacia Rio Doce, quer no litoral do Espírito Santo.
O prêmio em sua quarta versão continua a difundir a falsa percepção, no interior da academia, de que aVale S.A. tem preocupações ambientais e de “sustentabilidade”. Percepção que contraria a conclusão (em 23 de fevereiro de 2016) do Inquérito da Polícia Civil que indica como causas do desastre de Mariana a combinação de negligência e falhas que envolvem: liquefação; elevada saturação de rejeitos arenosos depositados na barragem de Fundão; monitoramento inadequado utilizando número reduzido de equipamentos e/ou equipamentos c om defeito; elevada taxa de alteamento anual da barragem; assoreamento do dique dois; e deficiência do sistema de drenagem. Em suma, a Vale S.A. foi comprovadamente negligente em relação aos direitos das comunidades tradicionais e ao meio ambiente e, ao mesmo tempo, capitaneia um prêmio de “sustentabilidade ambiental” que tem como alvo a universidade e a pesquisa acadêmica. Não podemos ficar em silêncio.
Que fique claro, nosso desconforto diz respeito à repetição de eventos, não se trata de uma “primeira vez” (apenas, no estado de Minas Gerais, desde 1986, aconteceram oito outros acidentes deste tipo, embora com menor amplitude), nem ocorreram por falta de alerta. Pelo contrário, o caráter frequentemente “anunciado” de tais eventos – ou seja, a prévia circulação de advertências quanto à probabilidade de ocorrência – contrasta com a diminuta ou nenhuma repercussão destes alertas junto a órgãos públicos responsáveis pelo controle ambiental das práticas produtivas.
Por último, mas igualmente importante, indica -se que se tome como objeto de interrogação, as razões para a permanente ausência de resposta, por parte de instâncias públicas, aos alertas da sociedade sobre riscos correspondentes à irresponsabilidade, imprevidências e descuidos observados nas práticas de muitos dos empreendimentos do setor mineral.
Considera-se que a insistente concordância da CAPES com o prêmio é um desrespeito à comunidade acadêmica, além de demonstrar descaso com as vidas humanas que vão de arrasto na enxurrada de lama.
Brasília, 02 de março de 2016.
Associação Brasileira de Antropologia